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Segunda, 20 Janeiro 2020

"A pobreza da cidade de Salvador tem cor, e ela é negra", afirma Leo Prates

Em sua série de entrevistas com atores do cenário eleitoral deste ano, o Portal A TARDE conversou com o pré-candidato a prefeito de Salvador, o secretário municipal de Saúde (SMS) da capital e deputado estadual licenciado Leo Prates

Em sua série de entrevistas com atores do cenário eleitoral deste ano, o Portal A TARDE conversou com o pré-candidato a prefeito de Salvador, o secretário municipal de Saúde (SMS) da capital e deputado estadual licenciado Leo Prates.

Eleito deputado pelo DEM em 2018, o titular da SMS está com conversa avançada para se filiar ao PDT, partido que integra atualmente a base do governador Rui Costa (PT) no estado da Bahia. A ida do democrata para a legenda pode tirar a agremiação do campo petista e reforçar a ala ligada ao prefeito ACM Neto (DEM). “A ida para o PDT depende de várias situações. A principal delas é a questão da Justiça Eleitoral. Nós aguardamos humildemente o julgamento do nosso processo, já tivemos dois votos favoráveis, acreditamos que o nosso processo responde à jurisprudência. Isso se confirmando, concluiremos as conversas com o PDT e a expectativa é de tentar construir um projeto é que dialogue com os movimentos sociais. Eu me sinto preparado para ter esse diálogo. Eu comecei a minha vida na militância do movimento estudantil”, recordou.

O secretário faz ainda um aceno à população negra da cidade de Salvador, público que é maioria no município. “Pretendo [caso eleito] voltar ao combate das desigualdades sociais, que são gritantes na cidade e realizar, sobretudo, o enfrentamento da pobreza. E para o enfrentamento, nós precisamos reconhecer que a pobreza da cidade tem cor, e ela é negra”.

Martin Luher King, líder do movimento dos direitos civis dos negros nos Estados Unidos, passou a ser lembrado por Prates em suas entrevistas. “Ele dizia o seguinte, e aqui parafraseio ele, 'desejo viver numa sociedade onde as pessoas não sejam julgadas pela sua raça, pela sua crença ou pela sua opção sexual, e sim pelo seu caráter'”.

Confira a entrevista abaixo:

A TARDE - Em entrevista ao Portal A TARDE na última semana, o pré-candidato Bruno Reis (DEM) foi claro ao dizer que não há a hipótese de disputar o mesmo cargo que você. Ou seja, os dois não devem concorrer à prefeitura em candidaturas separadas. Você concorda com essa afirmação?

Leo Prates - As convenções estão muito longe. As convenções partidárias, nas quais as candidaturas passam efetivamente a existir, só ocorrerão em agosto. Eu acredito que, em agosto, teremos uma candidatura única, mas nesse momento, eu mantenho a pré-candidatura esperando que o povo de Salvador abrace o nosso projeto baseado em ideias, em diálogos, e principalmente em movimento da nossa cidade voltada as pessoas da cidade de Salvador.

AT - O deputado Félix Júnior, presidente do PDT na Bahia, já deu declaração de que sua candidatura poderá representar os dois lados da política baiana. Acredita nesta possibilidade, já que são campos tão distintos?

LP - Eu acredito muito mais na possibilidade de uma administração. Veja, durante muito tempo, nos governos do saudoso senador Antônio Carlos Magalhães e do então governador Jaques Wagner se falaram que só se administrava Salvador alinhado ao governo do Estado. Tinha que ser do mesmo partido, inclusive. Depois veio ACM Neto, e é por isso que eu acho que ACM Neto entra para a história como um dos grandes prefeitos. Com ACM Neto, veio o desalinhamento e provou que a prefeitura poderia ser administrada por alguém em uma posição politicamente em oposição ao governo do Estado. Hoje, o que eu defendo é um amadurecimento desse processo e que a gente tenha um alinhamento útil. E me sinto preparado para fazer esse alinhamento útil. Por isso que o deputado Félix Júnior, um dileto amigo, deve ter dito isso. O que é o alinhamento? É o que nós estamos fazendo na Secretaria de Saúde [de Salvador]. Nós inauguramos um CAPS que o governo do Estado construiu e a prefeitura contratou o pessoal e está administrando. Nós inauguraremos mais seis postos de saúde, mais dois multicentros, que o governo chama de policlínica, são do mesmo formato. Eu fechei outra parceria com o secretário [de Saúde do Estado da Bahia] Fábio Vilas Boas, que é um amigo, para a entrega de um prédio no Rio Vermelho para colocação de unidade básica de saúde. Então o que eu defendo é muito mais do que só uma eleição, é uma administração voltada aos interesses da população e que coloque os interesses da população acima de qualquer divergência político-partidário.

AT - Você falou na relação com Fábio Vilas Boas, mas não há uma disputa neste campo, como a gente sempre vê na relação entre governo e prefeitura?

LP - De forma alguma. O que nós queremos é que a saúde melhore para a população, porque nós cuidamos do bem mais precioso das pessoas, que é a vida, a dádiva mais importante que Deus nos deu. Então, tanto com secretário Fábio Vilas Boas, quanto com o ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, que posso chamá-los de amigos. Eu posso dizer que a relação é a melhor possível e o que nós fazemos é para melhorar a saúde das pessoas. É para que a saúde melhore, esse é o foco. Fábio é um homem de um grande espírito público. Para você ter ideia, nós estamos tentando estabelecer uma complementariedade no nosso trabalho. Fábio está abrindo uma maternidade de média e alta complexidade no Subúrbio, e nós devemos receber do Estado a central para parto normal, que é uma coisa de baixo risco. Então, é isso que nós esperamos, que o nosso trabalho seja complementar e que o cuidado com a vida das pessoas melhore paulatinamente.

AT - Voltando ao assunto do PDT, você está nesse processo de saída do DEM para ingresso no partido. Essa aproximação dos dois partidos tem sido vista como um projeto para 2022. De fato, essa sua entrada no PDT é parte dessa estratégia?

LP - Eu sempre disse na minha vida que eu tenho três nortes na minha bússola, que são o meu bom Deus, representado pelos meus princípios, por meus valores, pois tenho conversado com ele toda noite para escutá-lo; é o povo de Salvador, quem generosamente me entregou todas as oportunidades, eu fui vereador duas vezes, fui presidente da Câmara, secretário de Promoção Social, secretário de Saúde, e me sinto preparado para os desafios que Salvador me entregue, mas o povo de Salvador é meu norte; e o prefeito ACM Neto. O prefeito ACM Neto já sinalizou a sua preferência, que foi pela pré-candidatura de Bruno Reis. Porém, nós decidimos manter a nossa pré-candidatura, nós estamos conversando com o PDT. Tenho em Félix Mendonça Júnior uma grande referência no estado da Bahia, é um grande amigo. No presidente Carlos Lupi [presidente nacional do partido], tenho uma admiração fantástica. Na última semana, estive com ele conversando. E o Ciro Gomes, vocês sabem que desde 2018 eu quis apoiar a candidatura do Ciro Gomes, mas fui voto vencido dentro do partido que eu fazia parte. A ida para o PDT depende de várias situações. A principal delas é a questão da Justiça Eleitoral. Nós aguardamos humildemente o julgamento do nosso processo, já tivemos dois votos favoráveis, acreditamos que o nosso processo responde à jurisprudência. Isso se confirmando, concluiremos as conversas com o PDT e a expectativa é de tentar construir um projeto é que dialogue com os movimentos sociais. Eu me sinto preparado para ter esse diálogo. Eu comecei a minha vida na militância do movimento estudantil, depois eu fui militante do movimento da causa da pessoa com deficiência e cheguei à Câmara. Depois, como secretário da Promoção Social, acabei me apaixonando e me aproximando do movimento pela pessoa com deficiência. Então, a minha pré-candidatura quer representar sobretudo as pessoas da minha cidade, é com estas que eu vou buscar dialogar em primeiro lugar, com estas que eu vou procurar conversar e apresentar uma agenda para o futuro. Nós precisamos continuar despertando sonhos e esperanças no cidadão, e mostrar que a sua vida vai, com certeza, ficar cada vez melhor.

AT - Nessa sua trajetória na vida pública, é nítida a sua relação de amizade com o prefeito ACM Neto. Nas últimas semanas, veio à tona que interlocutores do governador Rui Costa foram escalados para conversar com você sobre o cenário eleitoral em Salvador. Não havendo a concretização da sua candidatura no grupo de Neto, há alguma chance de ir adiante com a candidatura na ala de Rui Costa?

LP - Olha, vamos lá. Eu tenho um respeito pelo governador Rui Costa. Fui um secretário de Promoção Social que contou com o apoio do secretário Carlos Martins, que se tornou um dileto amigo. Eu sempre tive muita facilidade de trânsito, até porque eu tenho pessoas que militam no Partido dos Trabalhadores e são da minha família. Se eu posso dizer que um dos grandes ensinamentos que o meu pai Alfredo me deu foi o do respeito aos pensamentos divergentes e de que as pessoas podem se amar nesse momento de ódio, que podem se amar mesmo que pensem diferente. Eu tenho excelentes amigos do lado do governador Rui Costa, isso não quer dizer que a gente pense da mesma forma sempre. Nem no meu grupo, você sabe, eu penso da mesma forma, mas eu tenho uma relação maior que a política com o prefeito ACM Neto. Qualquer decisão que eu venha a tomar, ele ser a primeira pessoa a ser informada e a ser comunicada.

AT - Caso seja eleito, qual seria principal bandeira de Leo Prates como prefeito de Salvador?

LP - A minha principal bandeira seria a área à qual me dediquei e me aproximei, a questão da pessoa em situação de rua. Estas pessoas são as mais vulneráveis da cidade. São as que mais precisam do nosso apoio. Criamos o maior programa da história de Salvador em direção a pessoa em situação de rua, foram mais de R$ 65 milhões dos cofres da prefeitura para apoio. Possibilitamos pela lei do SUAS, o pagamento do auxílio aluguel para essas pessoas em situação de rua que desejam sair das ruas. Eu volto a dizer, é o programa que hoje é muito bem tocado pela secretária Ana Paula Matos, é um programa de amor, não é um programa de repressão. Aí você pergunta, Leo e por que está sendo feito esse investimento? Para dar a mesma oportunidade de quem não está em situação de rua a quem não está. A liberdade é sempre do cidadão, e a cidade é das pessoas. Esse é um dos principais legados que essa administração deixa, é a devolução da cidade ao cidadão de Salvador. Pretendo voltar ao combate destas desigualdades que são gritantes na cidade e sobretudo o enfrentamento da pobreza. E para o enfrentamento, nós precisamos reconhecer que a pobreza da cidade tem cor e ela é negra. E nós precisamos fazer essa reparação todos os dias. ACM Neto começou a implementação das cotas para negros, maior que a do governo federal. Eu, na Câmara de Vereadores, aprovei diversos projetos, inclusive, com apoio do Ministério Público e da promotora de Justiça Lívia Vaz, que modificaram a questão dos concursos públicos diminuindo a possibilidade de fraudes, como a criação da comissão de verificação, daqual o próprio MP faz parte. Esta reparação e esse enfrentamento à pobreza devem ser sempre reconhecidos, porque a pobreza dessa cidade tem cor. Também defenderei a ampliação dos programas e projetos para os negros e negras da nossa cidade, para que tenham a mesma oportunidade. Assim como eu desejo que o pobre tenha a mesma oportunidade que o rico, eu desejo que os negros tenham as mesmas oportunidades que os brancos. No dia 15 de janeiro [data em que a esta entrevista foi concedida], nasceu um dos maiores homens que passaram por essa terra, um pacifista que amou ao próximo, que foi Martin Luther King. Ele dizia o seguinte, e aqui parafraseio ele, 'desejo viver numa sociedade onde as pessoas não sejam julgadas pela sua raça, pela sua crença ou pela sua opção sexual, e sim pelo seu caráter'. Então, é essa cidade que eu vou visar a partir de 1º de janeiro de 2021.

AT - Você está à frente da Secretaria de Saúde de Salvador desde julho, o que você destacaria de avanços neste período da sua gestão?

LP - Nós fomos a primeira capital que instituiu a políticas de incentivos, uma grande política do prefeito ACM Neto para suprir eventuais subfinanciamentos do SUS, por exemplo, para uma cirurgia de joelho, o SUS passa cerca R$ 1,7 mil, e a prefeitura bota R$ 7,2 mil. Já gastamos R$ 536 milhões do nosso orçamento em parcerias com instituições. Eu citaria também a ampliação da rede de atenção primária, já abrimos, nestes seis meses, três unidades. O fortalecimento da saúde mental, porque era um desejo antigo de quem trabalha com a saúde mental. E aqui faço Justiça, uma das primeiras pessoas que trouxeram essa demanda foi a vereadora Aladilce Souza. Tivemos a inauguração do primeiro CAPS 24 horas, que a partir de março funcionará no bairro da Boca do Rio em parceria com o governo do Estado. Eu elencaria ainda a contratualização do Hospital Sagrada Família como maternidade com 200 partos, inclusive com a possibilidade da cirurgia neonatal no Hospital Sagrada Família. A instituição de tabelas, ou seja, a uniformização ação da política. Para você ter uma ideia, o Banco Mundial vai colocar como contrapartida no seu financiamento nos outros municípios a implementação pelo município. O município que tiver acesso ao recurso, terá que fazer essa tabela de incentivo, que na verdade é isso mais ou menos que eu estou falando. Você tem a tabela SUS e os municípios estão tendo que botar dinheiro em cima para ter o prestador, para que a pessoa tenha acesso à saúde. Nós uniformizamos essa política. A última portaria que nós baixamos de tabela de incentivo, no município de Salvador, foi a da oftalmologia. Essa foi uma grande conquista da cidade do Salvador. Tivemos a implementação do conselho de direito dos animais com protetores e protetores, houve a implementação de um serviço para recolhimento dos animais, tanto para cuidar das pessoas que estão trafegando pelas vias, porque aqueles animais representam um risco, quanto também da vida desses animais, que merecem toda a nossa atenção e carinho. E todos os animais de grande porte, como cavalos, éguas, que vocês tanto relatam, serão bem tratados na instituição, que terá 30 dias para cuidar da adoção desses animais e cuidar para que esses animais tenham uma vida digna, pois eles merecem. Também já estamos trabalhando, porque quero, até o dia 31 de maio deste ano, lançar o edital de licitação do tão sonhado Hospital Público Veterinário.

AT - Estamos no verão e é comum o aumento dos casos de doenças transmitidas pelo mosquito aedes aegypti. Como a secretaria se estruturou para combater estas doenças?

LP - A estruturação veio desde o ano passado. É preciso também reconhecer que o Ministério da Saúde teve um problema. Nós consultamos o ministério se podíamos fazer a compra direta, e não foi possível, não foi autorizada a compra do inseticida importado. De fevereiro a dezembro, todo o país teve um de desabastecimento do inseticida que é conhecido pela população como fumacê. Para se ter uma ideia, o Lira, que é o índice de infestação, fechou o ano de 2018 em 2,1%. Isso quer dizer que a cada 100 casas, nós temos 2.1% de infestação. Sem o inseticida no ano passado, você sabe quanto nós fechamos? Em 2.2%, graças ao trabalho hercúleo da Limpurb [Empresa de Limpeza Urbana de Salvador], e aqui vai o agradecimento em nome da cidade Salvador ao presidente da Limpurb, Marcus Vinícius Passos, e ao trabalho que a imprensa fez de conscientização. Cerca de 90% dos focos do aedes aegypti estão em casas particulares, então a população precisa colaborar.

Por: Aparecido Silva/ A Tarde

Fotos: Shirley Stolze

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